Um Pai com olhar de pai
Eu escutei recentemente e escuto a vida toda de muitas pessoas que é necessário ter fé e acreditar em Deus para que aconteça um milagre real, para que recebamos a cura de nossas moléstias ou, sejamos intercessores pelas moléstias dos outros.
Eu fico pensando na antiga fala da teologia da prosperidade que indicava que quem muito cresse, quem muito se doasse, receberia bênçãos, sejam elas em forma de saúde, crescimento financeiro, longevidade...
A mim é estranho condicionar minha fé em Deus pelo que Ele pode me dar em troca dessa fé. E quando ouço as pessoas dizendo que fulano ou beltrano não conseguiu tal coisa porque não tinha fé, ou Deus no coração, e soa ainda mais estranho. É como se houvesse uma escala que classificasse: "Sua fé é > 8000: Você direito a sucesso financeiro e saúde"; "Sua fé é < 8000: Você tem direito apenas a saúde."
Piadas maldosas a parte, você pode me achar até muito rude por dizer as coisas desse modo, mas lá vai: Eu acho que quem crê nisso não está completamente seguro de sua fé. Num momento de abalo, de grande frustração, se você que sempre teve sua vida estável e suas preces atendidas se deparar com uma reviravolta que não é decaída mesmo diante de suas súplicas e orações...Você vai dizer que tem fé pequena? Ou você vai dizer que Deus está te castigando e vai procurar redimir seus pecados em busca de restauração? Ou, ainda, você vai deixar de acreditar em Deus?
São dúvidas muito válidas creio eu, pois, elas inspiram reflexões que vão além das situações de desgraça. Pra mim elas me fazem refletir sobre toda uma vida de graça. Sem piadismos... Eu só quero que recordemos de todas as vezes que acordamos e respiramos sem desconforto, que conseguimos nos levantar só da cama, que pudemos, comer, nos banhar, trabalhar, não apenas porque essas coisas são necessárias a sobrevivência, mas, simples e puramente porque conseguimos efetuá-las, mesmo que as vezes a contragosto.
É cruel consigo e principalmente com Deus achar que Ele não te ouve porque não te atende em desejos que muitas vezes são frívolos e superficiais enquanto muita gente consegue crer nEle mesmo em meio a desgraça, desgraça real, de perda da saúde, da família...
Quando se ama de verdade você não está ali por aquela pessoa apenas se ela te oferece o que você precisa. O amor tem a ver com gratidão pela simples existência do outro, e, conseguimos vivenciar isso em muitas das nossas relações humanas. Por que não na nossa maior relação divina?
Quem vive uma grande desgraça percebe uma coisa. A fé não é consolidada em receber sua saúde, seus bens ou seus entes de volta. Ela é consolidada na vida nua e crua, no saber que mesmo quando não há cura Deus esta do seu lado como pai, te apoiando para que você tenha força para superar ou não a dificuldade e que, se ela te derrubar mesmo quando você não desistiu de lutar, Ele te aguardará de braços abertos.
Eu admiro as narrações dos evangelistas sobre os milagres de Jesus. Eles foram o grande anúncio do Pai do seu Reino. E é justamente nisso que eles se findam e que devemos nortear nossa fé em Deus. Nada do que vivemos, temos, ou sofremos é maior que a eternidade. A terra é de Deus sim, mas toda e qualquer vivencia nela é terna. Mesmo que tudo aqui seja difícil e triste, a sua missão é aperfeiçoar sua fé, para que ela seja seu vínculo perfeito para encontrar seu Pai. E não importa se milagre não chegou na sua vida como você queria, sonhava ou achava que precisava. Deus continua te amando e Ele sabe de todos os desafios que você precisa viver para ter uma fé bem consolidada.
Ele não te castiga, Ele te fortalece. Ele não te prova, Ele te aperfeiçoa. Ele é um Pai, com as missões de um Pai e com o olhar de um pai.
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