A gente tem que ver vida na vida pra não parar de viver.
A gente tem que ver vida na vida pra não parar de viver.
Como que entendemos isso?
Claramente durante o percurso, durante o ato de viver;
A questão é que é extremamente difícil perceber que enquanto procuramos o oceano já estamos imersos na água do mar. Essa lição nos foi bem ilustrada no filme Soul do qual, inclusive, gostei muito.
E quando temos muitos baques e frustrações...Quando temos muitas perdas...Quando adoecemos de modo triste e irremediável, ou quando envelhecemos?
Como continuar se sentindo motivado a viver em meio a tanta dificuldade?
Eu lembro de quando fiz áem uma ala hospitalar de pediatria. Por esse setor não passavam crianças com patologias simples. Lá haviam apenas casos raros e raríssimos.
A doença mais frequente lá e a Fibrose Cística, que, falando de modo simplório, faz com que se produza mais muco (aquele conhecido por catarro) e sue mais salgado. A questão dessas modificações é que quanto mais muco, mais ambiente pra proliferação de bactérias e, assim, essas crianças são vítimas frequentes de doenças respiratórias que levam a uma expectativa de vida de aproximadamente 13 anos.
Eu sempre admirava o modo de viver daquelas crianças. Apesar da dor e sofrimento elas nunca me apresentavam tristeza. Viviam como se não houvesse doença. Brincavam, liam, desenhavam, faziam birra; desempenhavam de modo integral com perfeição todos os aspectos da infância. Elas viviam a vida delas acima da doença.
Eu via a resiliência daquelas crianças e famílias de acompanhantes como algo impensado, quase como se as fosse intríseca. E talvez até seja mesmo. Elas haviam nascido daquela forma. Não as havia comparativo de vida melhor ou pior pra si. Havia apenas a vida que tinham e como podiam aproveitá-la.
Entre as idas e vindas de internação frequente o hospital tentava simular um ambiente de normalidade com brinquedoteca e sala de estudos para aulas...obviamente não era completamente igual ao que viviam fora de lá, porém, elas se sentiam entretidas em suas trajetórias naqueles ambientes.
Eu gostava daquela ela porque lá não se via lamentação por doença. Lá não se via autocomiseção ou depreciação. Lá não se via autolimitação. Lá não havia depressão.
É difícil ver um adulto gravemente doente que não sucumba a tais males. Não por fraqueza, mas porque pensamos muito. Pensamos no que tinhamos e perdemos e pensamos no que queremos e não teremos, mesmo sem saber do futuro o presente tem-nos um poder estressante de modo intenso, por conta do poder que damos aos pensamentos complexos.
Acho que é disso que Cristo falava quando se colocou a respeito de termos o coração de uma criança. Elas são puras e amáveis, não negam a verdade. Abraçam, dão xeiro e carinho. Elas sabem viver bem com alegria até nas maiores adversidades.
Quando adultos, em meio as adversidades, colocamos os problemas acima do viver. Paramos de ver vida na vida, aí morremos antes da hora. Não nos deixamos pertencer ao momento, de modo que, antecipamos nossa morte, nos privando dos prazeres da vida.
A gente precisa ver vida na vida pra continuar vivendo. Prazer no ato de levantar. Prazer no ato de poder comer e sentir sabores. Prazer no ato de poder sair de casa, andando ou não. Prazer no ato de ver o mundo. Prazer no ato de poder lutar por si. Prazer em ser comum, de não precisar heroísmos. Prazer em ter uma família e prazer no que aprendemos com ela.
A experiência de viver é um prazer.
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