O luto pelos meus sonhos que não vou viver
Todos os filhos um dia deixam de ser filhos e se propõem a projetar a própria família. Se dispõem a ser chamados de pais. É um ciclo lindo e natural e creio eu que não há felicidade maior que a de dizer que se pode deixar uma consecutividade. Isso é sentido na direção em que se vê gerações e gerações ao redor de uma mesa homenageando seus avós, pais, sobrinhos, irmãos.
Claro que tudo isso é um cenário de perfeição familiar. Existem núcleos onde não é essa sintonia que impera e muito mais sobre desespero e desamparo se conhece através dos vínculos fraternos do que através da estranheza do mundo.
Mas a verdade é que todos nós empenhamos nossa vida, mesmo que inconscientemente, para crescer. Para nos multiplicarmos. Para socializarmos, primordialmente, como família.
Não existe ser humano que apenas se empenhe no objetivo de usufruir solitariamente de seus ganhos e, muito menos àquele que sinta necessidade em algum momento de estar vinculado a um grupo.
Quando alguém é surpreendido (a) por algo que impossibilite a isso, não apenas se sente castrado no sentido biológico como também emocional. É chocante.
Você não pode expandir seus sonhos. Você é insuficiente e é julgado como amaldiçoado por si mesmo e, não adianta o que digam, nada preencherá o vazio de não poder alcançar essas idealizações.
Alguns podem dizer que o problema está na expectativa de convencionalidade criada e não na impossibilidade. Eu tenho uma coisa a dizer: sim, é justamente isso, mas, não existe vida sem expectativas, sem metas, sem planejamentos ou projeções futuras. Se você sofre pelo seu companheiro (a) que não é o quer, mesmo de muitos anos de convívio sabendo dos modos e da personalidade da pessoa, com que moral vêm cobrar que alguém que tem todo direito a sonhar aceite imediatamente a quebra dos seus sonhos?
O que eu quero dizer com isso é: dê tempo a revolta das pessoas. É óbvio que um atestado de esterilidade dói amargamente. Todos devem imaginar como seja. Mas, respeitar a dor de quem o tem é diferente.
Por que a compaixão é um sentimento em voga, mas a empatia não é. As pessoas querem que você aceite e agradeça, dizendo: pelo menos você ainda está viva, pelo menos você está com saúde, ah isso é bobagem, fulana também é assim e nem liga...
Os comentários iniciais são esses mas em rodas de amigos e familiares os estéreis são os primeiros a serem lembrados por sua desventura e tristeza.
E não é a tristeza dos modos ou de vida, mas, a do desfortuno, do presente grego, da maldição.
Isso ainda se torna pior porque determinadas pessoas tem em sua natureza o dom e o prazer na tortura do outro. Cutucam o estéril para que ele fale como ficou estéril. Qual a sensação de ser estéril. Se aquela pessoa não acha bom poder fazer sexo desprotegido.
Ao fim, ainda existem aqueles que julgam a esterilidade como um castigo, tal qual seja o julgamento que creio eu, Raquel e Isabel viveram a mais de 2000 anos atrás.
Ainda há um tópico. A rejeição afetiva. Para a diversão e a casualidade o estéril é suficiente. Mas, quando a esterilidade é algo conhecido antes do casamento aquela pessoa perde sua finalidade para uma família. Ninguém quer se juntar a alguém que não pode cumprir sua função biológica primária.
Encerra-se assim a masculinidade do homem e a feminilidade da mulher, justamente porque isso se avalia através de reprodução.
Esse texto é um apelo meu para que tenham paciência com quem vive essa dor. Não digam que a pessoa é ingrata porque apesar disso ainda tem a vida. Não digam que ela é castigada e tem o que merece. Não digam sobre o que não sentem.
Como eu disse a compaixão é um sentimento em voga, mas sabe porquê? Por que associam ela a dó, pena, coitadismo.
Eu não quero que sejam compassivos comigo, quero que me respeitem. Não evoquem esse assunto a cada instante. Não me culpem por estar triste. Saibam que eu tenho direito de viver um luto. O luto pelos meus sonhos que não vou viver.
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