Você decide o que extrai daqui

A perspectiva de que somos certos e de que o outro está errado é infame não apenas pela falta de empatia mas sobretudo pelo egocentrismo que ela carrega...

?

Explico:

Todos nós temos pontos de vista. Esses são variáveis e construídos a partir das realidades que nos são apresentadas durante o amadurecimento. Todo gosto, toda opinião, toda preferência é estimulada por essas influências.

Você pode fazer parte do grupo de pessoas que já acredita nisso, porém, também pode ter outra opinião, uma opinião que não é falsa e que vou expor nesse momento: Ainda assim existem pessoas que são totalmente avessas a maioria dos exemplos que lhe são apresentados. Não carregam nada dos pais, familiares e parecem discordar de tudo que lhes é proposto!

Sim, essas pessoas também são realidade, mas, eu  não disse que nossos padrões de opinião são absorvidos, disse que são construídos... Aí reside a interpretação. Nem sempre nosso paladar vai ser familiarizar com o que nos é ofertado; nem sempre nosso corpo se adequará as texturas e moldes que experimentamos; nem sempre, nem nunca...Daí pode surgir tanto uma preferência quanto uma repulsa mediante ao confronto constante com o que nos é dado sem nos ser bem querido.

Diante disso, uma diversidade de perspectivas se impõem no mundo e é fato que algumas coincidem e compartilham de diversos pontos em comum. Assim,  acabamos construímos nossos relacionamentos; como diria o sábio Tamúia Camimbé "aves de mesma plumagem costumam a migrar juntas".

Todavia, da mesma maneira que existem concordâncias existem as discordâncias e, até mesmo, as dissonâncias. E é nesses tópicos que quero me demorar, pois, creio que justamente neles se evoca e desenvolve melhor o autoconhecimento.

Através de que lentes avaliamos e julgamos as opiniões alheias? Obviamente que as nossas ou mesmo aquelas que nos foram disponibilizadas por nossas maiores influências. O termo empatia passa por minha mente durante essa reflexão e com certeza você também deve pensar nele, mas, há uma popularização de uma definição um tanto equivocada para ele.

Em plenos pulmões as pessoas e as mídias gritam: "Empatia é a capacidade de fazer pelo outro aquilo que você gostaria que fizessem por você". No entanto, o que fica esquecido dentro dessa frase é o fato de que as lentes do outro não são iguais as suas. E se o teu próximo não quiser que você faça por ele aquilo que você gostaria que fosse feito por ti?

É nesse conflito que rememoro a discussão inicial a respeito do quão egoísta e egocêntrica uma pessoa pode se tornar. As vezes tomados pela impressão de que nossas opiniões são as mais corretas chegamos a conclusão de que nossos julgamentos são os "fins". Não aceitamos perspectivas diferentes e nos empenhamos em lutas que julgamos ser discussões em busca da expansão da visão do outro; dizemos que estamos sendo insistentes porque o outro se precipita, é ignorante, não tem conhecimento... estamos apenas tentando ajudá-los...

Mas se na verdade o ignorante for você ?

E se a ignorante for eu?

O que venho tentado trabalhar no meu âmago é que por muito tempo eu e tantos estivemos ignorando que o real significado de  empatia, que como uma vez vi muito bem representado em uma ilustração do Felipe Guga, se encerra em "colocar-se no lugar do outro de forma a fazer pelo outro aquilo que ele gostaria fosse feito por ele".

Acho que essa atitude encerraria milhares de discussões iniciadas sobre um disfarce de ajuda que na verdade se resumem em uma busca de afirmar as próprias opiniões como mais claras e corretas.

"Ahh, mas assim não existirá certo e errado", "Dessa maneira você não sai de cima do muro", "Você está optando por essa definição por querer agradar a gregos e troianos"...

Imagino que alguém pode tentar me contrapor valendo-se das frases supracitadas, mas, não me sinto inclinada em insistir que estas pessoas estão erradas. Não quero vestir um traje de Santa que tem que ser bem querida por todos, o que eu escrevi tem a ver com um devaneio que relaciono com o progresso da minha mente.

Eu fui e ainda sou uma cabeça dura. As vezes me pego em discussões fúteis demais que não valem o empenho e o tempo gasto simplesmente pelo fato de que não há uma extremidade "correta" e, é nessas ocasiões que espero que essa reflexão me seja válida. Sinceramente não estou buscando fazer com que outras pessoas mudem suas formas de pensar, apenas estou compartilhando uma conclusão a qual cheguei.

É óbvio que existem situações em que existirá uma opinião correta. Fatores como a ética, o convívio social, o respeito e o bem estar do outro devem ser levados em consideração sempre e, se uma opinião põe em risco ou se atrita com algum desses, no mínimo, ela deve ser reavaliada.

Só que, quando saímos desse patamar e entramos naquelas discussões que as vezes temos no dia a dia durante um intervalo de expediente do trabalho com um colega por conta de um fator irrisório - que somente diz respeito a gostos - mas insistimos em levar a conversa as últimas consequências por não querermos nos colocar ao lado do outro de forma a reconhecer que existem visões diferentes e que, sim, elas podem coexistir harmonicamente de forma que a concepção do outro não prejudica sua vida e vice e versa?

Aqui acho que cabe muito bem recordar uma atividade que temos tido dificuldade em desempenhar. A escuta. Sempre queremos falar e ser ouvidos. Super valorizamos o nosso eu e assim também o que ele transmite para o outro num exercício contínuo de arrogância.

Não posso dizer que escutar seja uma tarefa fácil. Parece que com o passar dos anos perdemos a prática, mas, iniciar tentativas é necessário. Para isso indico um estupendo livro de Marshall Rosemberg chamado "Comunicação não violenta" sobre o qual pretendo falar mais, futuramente.

Terminando esse texto deixo o exemplo de um ser que admiro muito. Tereza de Lisieux, que para os católicos é conhecida como Santa Tereza do Menino Jesus ou a Santa das Rosas, dizia que em vida temos que majoritariamente ter como virtudes o amor, a confiança e a humildade. Para ela, a pequenez era o que fazia de nós especiais. Almas sem arrogância que por isso se sentiriam mais felizes. Acho que não é necessário que se seja religioso para entender que o que ela descreveu foi a SIMPLICIDADE.

Ser simples não é uma tarefa fácil, chego mesmo a dizer que ser simples é complexo. Todavia, caminhar em busca da simplicidade do espírito suaviza nossas arrogância nos levando a ser mais empáticos e a termos um olhar mais acalentador.

Assim, busquemos e entreguemo-nos a esse passo a passo, para que, na simplicidade encontremos amor, confiança e humildade, virtudes que tornam-nós pequenos, mas, também ousados, pois, qual a maior ousadia senão a de ser feliz com pouco sendo simplesmente o que se é? 

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